CRQ-III em ação: o caso do esverdeamento das águas nos Jogos Olímpicos Rio 2016

O CRQ-III, responsável por zelar pelo exercício regular da profissão de químico em nosso estado, esclarece este acontecimento. Os Jogos Olímpicos Rio 2016 propuseram desde seu projeto inicial uma preocupação com a sustentabilidade e valores olímpicos (respeito, igualdade e superação). Entre a beleza do espetáculo de abertura, os recordes e conquistas dos atletas até o apagar da menor pira olímpica da história, um episódio foi repercutido negativamente na imprensa nacional e internacional: o esverdeamento das águas no Parque Aquático Maria Lenk.

Em 12 de fevereiro, o CRQ-III enviou para o Comitê Organizador dos Jogos Rio 2016 o Ofício nº 034/2016 para levantar informações quanto aos responsáveis pela manutenção e tratamento dos complexos de piscinas utilizados nas competições olímpicas e paralímpicas. Vale ressaltar que são privativos do químico: tratamento, em que se empreguem reações químicas controladas e operações unitárias, de águas para fins potáveis, industriais ou para piscinas públicas e coletivas, esgoto sanitário e de rejeitos urbanos e industriais, conforme o Artigo 27 da Lei nº 2.800/56 e Artigo 1º da Lei 6.839/80. Portanto, o Responsável Técnico deve ser indicado pela empresa ao CRQ-III que, dentro de critérios técnicos e legais, avaliará se os profissionais estão habilitados a desempenhar tal atividade.

Com a proximidade do início do evento sem que as informações fossem repassadas, a consulta foi reiterada no dia 11 de maio, através do Ofício nº 127/2016, também sem obtenção de resposta. As competições começaram com os responsáveis pelo tratamento e qualidade das águas dispensados aos atletas deliberadamente ocultados pelo Comitê Organizador.

Lamentavelmente para os atletas, para os Jogos e para as imagens da cidade e país, falhas técnicas no tratamento químico afetaram a qualidade das águas da piscina utilizada nas competições de nado sincronizado e saltos ornamentais, do Parque Aquático Maria Lenk.

2016 Rio Olympics - Water Polo - Preliminary - Men's Preliminary Round - Group A Australia v Japan - Maria Lenk Aquatics Centre - Rio de Janeiro, Brazil - 10/08/2016. Water turns green in the diving pool of the Aquatics Centre. REUTERS/Kai Pfaffenbach FOR EDITORIAL USE ONLY. NOT FOR SALE FOR MARKETING OR ADVERTISING CAMPAIGNS.

Foto: REUTERS/Kai Pfaffenbach

As condições ficaram propícias ao crescimento de microrganismos, que esverdearam e turvaram as águas, em imagens noticiadas no mundo. Após tentativas frustradas dos responsáveis pelo serviço de tratamento, coube ao então Diretor de Comunicação do Rio 2016, Mario Andrada, admitir o descontrole técnico do processo e afirmar que a causa do problema devia-se ao fato da “química que não ser uma ciência exata”. O Presidente do Conselho Regional de Química – Terceira Região respondeu a declaração:

“A química é sim uma ciência exata como também tem seu exercício como profissão ou exploração empresarial regulamentado.” – Isaac Plachta

A “solução” encontrada foi a substituição da água fora de especificação. Esta ação teve como consequência o descarte de milhões de litros, o que contrariou a expectativa de promover a sustentabilidade ambiental dos Jogos Rio 2016. Dessa forma, reiteramos a solicitação dos responsáveis técnicos pelo tratamento das águas das piscinas através do terceiro ofício (nº 000431/2016, datado de 17/08/2016).

Após o término do prazo concedido, novamente sem o pronunciamento do órgão, encaminhamos um fiscal ao Parque Olímpico para levantamento das informações in locco. Alegando questões de segurança nacional, o acesso do CRQ-III não foi autorizado pelas forças de segurança. Por consequência, o Conselho solicitou acesso às instalações e aproveitou para reiterar a solicitação anterior.

Finalmente, no dia 12 de setembro, recebemos a informação dos CNPJs das empresas contratadas para o serviço de tratamento das águas das piscinas. Ao verificarmos nossa base cadastral, identificamos que as empresas RioUrbe e Consórcio Onda Azul, responsáveis pela manutenção e operação do OAS do Estádio Aquático Olímpico, a empresa Myrtha Pools, responsável pela manutenção e operação do CVP do Parque dos Atletas, bem como o Comitê Olímpico Brasileiro/VUA, responsável pela manutenção e operação do Parque Aquático Maria Lenk, não possuem químico responsável técnico junto ao CRQ-III, pelos serviços prestados durante a competição. Tal fato explica a falha técnica que resultou na proliferação dos microrganismos, contaminando as águas das piscinas.

“O nosso papel é, justamente, fiscalizar as empresas que trabalham com produtos químicos, a fim de assegurar que tanto a sociedade quanto o meio ambiente não corram nenhum risco. Procuramos o Comitê Olímpico Brasileiro, por meio de ofícios, a fim de ficarmos a par dos procedimentos, e, desta forma, orientarmos para que tudo fosse feito de modo correto”, disse o presidente do CRQ-III.

Como as informações de qualificação jurídica e os limites de atuações não foram fornecidos, o Conselho continuará fiscalizando o consórcio Onda Azul e o consórcio Benge para elucidação das responsabilidades contratuais de cada empresa, para adoção das medidas cabíveis à regularização e autuações dos infratores.

 

* Confira o Informativo do CRQ-III para saber mais sobre este e outros assuntos