Dia da Mulher – Major Cláudia Moraes

Como forma de reverenciar o Dia da Mulher e ampliar o debate sobre igualdade de gênero e construção de mudanças com inteligência e inovação, o Conselho Regional de Química – Terceira Região entrevistou Cláudia Moraes, Major da Polícia Militar do Estado do Rio Janeiro (PMERJ) e Mestre em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Confira:

CRQ-III – “Pensemos em igualdade, construção das mudanças com inteligência e inovação” foi o tema escolhido pela ONU para o Dia da Mulher 2019. Acredita que estamos construindo estas mudanças?

Cláudia Moraes – O fato da questão precisar surgir como tema da ONU para o Dia da Mulher em 2019, nos sugere algo óbvio e socialmente subestimado que é a desigualdade e exclusão feminina nos setores que envolvem questões como inovação e tecnologia. Segundo dados da própria ONU, estima-se que menos de 30% dos pesquisadores em áreas científicas e tecnológicas sejam mulheres e, desse fato não se excluem vieses de gênero. Isso porque, mesmo que de forma irrefletida, a seleção para esta ou aquela área do conhecimento me parece já acontecer nas bases do ensino e na cultura, com reforço de estereótipos de que há profissões masculinas e femininas. Isso acaba por afastar as meninas das áreas como ciência e tecnologia entendidas como mais racionais e menos afetivas, portanto “não femininas”, ao contrário das áreas voltadas ao cuidado.

CRQ-III – Em 8 anos de organização do Dossiê Mulher, viu mudanças acontecerem em favor das mulheres?

C.M. – Nos 8 anos que participei da organização do Dossiê Mulher, o relatório anual do Instituto de Segurança Pública – ISP, sobre violência contra a Mulher no estado do Rio de Janeiro, vejo que houve avanços em diferentes áreas principalmente na legislação brasileira, que vêm se aperfeiçoando e amadurecendo ao longo do tempo. Desde a Lei Maria da Penha, em 2006, um marco no enfrentamento à violência contra a mulher, até as leis de Feminicídio (2015) e Importunação Sexual (2018). Também vejo maior conscientização e interesse da mídia e da sociedade sobre esse tema e o mal que a violência contra a mulher representa para a sociedade como um todo. Todavia, infelizmente, isso ainda não se reflete em redução de estatísticas, que continuam em patamares epidêmicos.

CRQ-III – Você vê a tecnologia e a inovação como ferramentas de proteção das mulheres?

C.M. – Sim, não só como proteção, mas também como maior emancipação das mulheres e, inclusive, já temos iniciativas como dispositivos de como “botões do pânico” ou aplicativos desenvolvidos para mulheres em situação de violência, que ajudam com informação e acessibilidade. Entretanto, as mulheres precisam estar aptas e qualificadas para participarem ativamente do processo de construção dessas tecnologias e inovações.

CRQ-III – Acredita que as meninas de hoje serão mulheres mais protegidas?

C.M. – Acredito que a maioria das meninas de hoje tenham muito mais liberdade, espaço e acesso a informação, o que não necessariamente significa mais proteção. Pois elas, além da violência clássica e histórica que é a violência física, também sofrem com os efeitos das inovações e avanços tecnológicos que criam novas formas de violência como os crimes relacionados ao uso da internet que afetam as meninas de forma muito específica.

CRQ-III – Existe algum contexto em que a mulher esteja mais vulnerável?

C.M. – Um dos pontos muito discutido na literatura é que as diferentes formas de violência contra a mulher tem suas bases na cultura e na estrutura social, nesse sentido afetaria a todas as mulheres independentemente de classe social. Em certa medida isso ocorre, entretanto não se pode deixar de considerar que em contextos de exclusão e pobreza esses efeitos tendem a se agravar, o que torna mulheres pobres e negras mais vulneráveis ainda. Tal como mostrou o Dossiê Mulher de 2018, que apontou taxa de homicídio doloso entre mulheres pretas é dobro em relação às brancas.

CRQ-III – Em sua opinião, o que cada um de nós pode fazer para que as mulheres sejam igualmente respeitadas e protegidas?

C.M. – O primeiro passo é reconhecer que vivemos em contexto flagrante de desigualdade entre homens e mulheres, pois ainda há muita negação quanto a isso. Partindo daí, e mais a longo prazo, investir em educação e mudança de cultura estimulando que meninas e meninos possam igualmente desenvolver todas as suas potencialidades humanas.

Cláudia Moraes é Major da Polícia Militar do Estado do Rio Janeiro (PMERJ), Mestre em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ (2012), possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2010), graduação no Curso de Formação de Oficiais pela Academia de Polícia Militar D. João VI (2002), Pós-Graduação lato sensu em Liderança e Gestão pelo Centro de liderança Pública (CPL/SP),Pós-Graduação lato sensu em Gênero e Direito pela Escola de Magistratura do Rio de Janeiro – EMERJ (2017) e Pós-Graduação lato sensu em Segurança Pública pela Universidade Cândido Mendes (2010). Atualmente é Subcoordenadora de Comunicação Social da Secretaria de Estado de Polícia Militar do Rio de Janeiro e integra a Comissão Especial de Segurança da Mulher do Conselho Estadual de Direito da Mulher – CEDIM/RJ e é membro do Fórum Permanente de Violência Doméstica e de Gênero da Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro – EMERJ. Foi Coordenadora Estadual dos Conselhos Comunitários de Segurança (CCS) de 2012 a 2018 e é instrutora dos cursos de formação e qualificação da PMERJ e PCERJ nas disciplinas Análise Criminal, Direitos Humanos e Sociologia. Principais áreas de atuação: Direitos Humanos, segurança pública, análise criminal, participação social, gênero, diversidade e violência.