Instituto de Química Verde comemora resultados do primeiro ano e projeta novos desafios para 2017

A Química Verde está diretamente ligada ao conceito de sustentabilidade, tema recorrente de congressos científicos e pesquisas. Sob este novo paradigma do mundo, a ciência se revela como um grande agente de mudança socioambiental através de ações que visam a diminuição do gasto energético e do uso e produção de resíduos tóxicos.

As propostas tecnológicas para o reaproveitamento de resíduos agrícolas e industriais, criação de polímeros verdes, avanço e modernização das técnicas de extração de óleos vegetais, dentre outras, têm ao final da cadeia de produção um grande impacto ambiental, econômico e social. Pensando nisso, o Conselho Regional de Química – Terceira Região convidou o Gerente do Centro de Tecnologia do SENAI, Paulo Roberto Furio, para comentar os resultados do Instituto SENAI de Inovação de Química Verde após um ano de inauguração.

 

Como a Química Verde desenvolve projetos para ajudar a indústria a trabalhar minimizando os impactos ao meio ambiente e à saúde humana?

O conceito da química verde (conhecida também como química sustentável) está relacionado ao desenvolvimento de processos e produtos que minimizam de alguma forma o uso e a geração de substâncias perigosas, bem como promover a economia de energia e de átomos (de forma simplificada produzir a menor quantidade de resíduo possível). Assim, a aplicação deste conceito tem impacto direto sobre o meio ambiente e a saúde humana, uma vez que o processo industrial passa a produzir ou utilizar uma quantidade menor dessas substâncias nocivas. Podemos citar como exemplo o uso de extração por fluido supercrítico (água ou CO2), que elimina o uso de solventes orgânicos (diversas indústrias farmacêuticas e de produtos vegetais já utilizam esta tecnologia em escala industrial), diminuindo a exposição humana no âmbito ocupacional e a carga de solventes sobre o meio ambiente. Além de ser mais limpa, essa tecnologia possui grande vantagem econômica para a empresa. Outro exemplo a citar é o uso de processos biotecnológicos para criação de microrganismos geneticamente modificados para aumentar a eficiência ou produzir compostos de alto valor agregado. O uso de bactérias ou microalgas pode produzir mono-etileno glicol, álcool perílico, isopropanol, vitaminas, peptídeos bioativos a partir de resíduos da indústria do papel, madeira e cana-de-açúcar.

 

Quais são as análises após um ano da inauguração do primeiro Instituto SENAI de Inovação para a Química Verde no Brasil? Quais foram os projetos que se destacaram em 2016 e quais são as perspectivas para o próximo ano?

O primeiro ano do Instituto SENAI de Inovação em Química Verde (ISI Química Verde) foi motivador, conseguimos projeção como centro tecnológico de apoio a inovação no setor industrial, extremamente importante para o SENAI e especialmente para o sistema FIRJAN. Em um período marcado pela retração econômica, conseguimos financiamentos de grande porte através de diferentes fontes: seja por contratação direta ou através de programas institucionais de incentivo, com ênfase para o financiamento compulsório da Agência Nacional de Petróleo. Em 2016, podemos destacar dois grandes projetos de pesquisa: um projeto de caracterização química do óleo do pré-sal e de melhorias nos processos de refino e outro projeto que envolve diferentes parceiros nacionais no desenvolvimento de plástico a partir de fontes renováveis.

Iniciamos o ano de 2017 com a execução de um projeto de divulgação de química verde no âmbito nacional (acadêmico e não acadêmico), incluindo a apresentação de um estudo de caso no Brasil que utiliza o conceito de química verde aplicado ao desenvolvimento de um produto inovador. Esse projeto é financiado pela Global Environmental Facility (GEF) e United Nations Industrial Development Organization (UNIDO), uma agência especializada da ONU que tem como objetivo promover e acelerar o desenvolvimento industrial sustentável e inclusivo. Além disso, começamos neste ano duas colaborações técnicas/científica de cunho internacional na área de tratamento de efluentes: a primeira cooperação será com a Universidade de Stuttgart (Alemanha) e tem como objetivo desenvolver um sistema de tratamento de efluentes que utiliza nanotecnologia para criação de biomembranas. A outra cooperação será com a Hysummit Corporation, uma empresa americana que busca desenvolver no ISI Química Verde um protótipo de sistema tratamento de efluentes totalmente inovador que consome grandes quantidades de CO2 e produz hidrogênio para ser reintroduzido na cadeia econômica como combustível. Promovemos neste mês, em liderança junto com Instituto SENAI de Tecnologia em Solda (IST Solda), um consórcio científico de nanotecnologia que envolve pesquisadores da UERJ, PUC-RIO, UFRRJ, IST Solda e ISI Química Verde para desenvolver projetos na área de nanotecnologia. Além dessas atividades já iniciadas, começamos o ano com a assinatura de dois grandes projetos na área de petróleo e gás. Enfim, 2017 promete ser um ano muito promissor e de grande expansão.

 

Como o Instituto pode atuar no apoio e desenvolvimento de startups do setor químico e no crescimento de jovens estudantes que se interessam pela área?

Atualmente, existe um edital interno do SESI/SENAI para apoio a empresas industriais e de base tecnológica, como startups que ficam incubadas dentro do ISI Química Verde. Neste momento, suportamos a Plankton Brasil, uma startup de biotecnologia que busca a produção de ativos de alto valor agregado a partir de microalgas, utilizando tecnologias para intensificação de processos. Esse edital tem fluxo contínuo com três entradas anuais e está aberta a qualquer empresa que se enquadre nos quesitos do edital.

Até o ano passado, jovens estudantes interessados em contribuir conosco poderiam ingressar através do programa de estágio institucional (nível técnico e nível superior), disponível pelo sistema Firjan. A partir deste ano, somada a esta possibilidade, iniciamos parcerias com programas de pós-graduação para o desenvolvimento de projetos com alunos de mestrado, doutorado e pós-doutorado que realizarão as respectivas teses e dissertações dentro do nosso instituto. O intuito é estender essa iniciativa e fomentar esse programa com bolsas de estudo provenientes do próprio SENAI ou de indústrias parceiras. Esse processo ainda está em fase de implementação e pretendemos consolidá-lo ao longo de 2017. Com relação as parcerias internacionais, buscamos também nesses dois projetos com EUA e Alemanha o intercâmbio de estudantes estrangeiros para estágios de média duração.

 

Como participar do processo seletivo para inclusão de projetos no ISI Química Verde?

A missão do ISI Química Verde é dar apoio científico e tecnológico através de soluções inovadoras para a indústria brasileira. Assim, o desenvolvimento de projetos voltados para a pesquisa aplicada pode ser custeado de diversas formas. Através de contratação direta, podemos participar junto com a indústria de programas de fomento reembolsáveis e não reembolsáveis do governo, como BNDES, FINEP, PADIQ, e verba ANP (o ISI é credenciado pela ANP). Além disso, o Departamento Nacional custeia por meio de fluxo contínuo projetos de inovação para a indústria. O edital SESI/SENAI apoia a indústria com aportes de até R$ 400.000,00 para desenvolver projetos inovadores com nossos Institutos de Pesquisa. Nos últimos dois anos, esse edital de alcance nacional tem sido muito concorrido, inclusive por grandes multinacionais.

 

* Confira o Informativo do CRQ-III para saber mais sobre este e outros assuntos