Museu do Amanhã expõe trajetória de química com mais de 56 prêmios na carreira

A história e projetos de Joana D’Arc Félix de Souza chamaram a atenção dos organizadores da exposição Inovanças – Criações à Brasileira, do Museu do Amanhã. O começo difícil, a falta de estrutura, a fome e o preconceito não impediram a brasileira de se tornar PhD em química pela renomada Universidade de Harvard, dos Estados Unidos.

Filha de um profissional de curtume (ou alcaçaria) – operação de processamento do couro cru que tem por finalidade deixá-lo utilizável para a indústria e o atacado -, Joana observava o dia a dia dos profissionais e decidiu seguir a carreira química. O esforço acabou recompensado com o ingresso na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

As oportunidades surgiram logo no segundo semestre, quando começou a iniciação científica e teve o auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). A partir do primeiro passo, a vida acadêmica alcançou grandes conquistas: graduação, mestrado e doutorado em Campinas – este último com apenas 24 anos. Um dos artigos da cientista saiu no Journal of American Chemical Society, o que rendeu um convite para seguir os estudos nos Estados Unidos para realização do pós-doutorado na Universidade de Harvard.

A base de pesquisa foi um problema muito comum em Franca/SP, região onde Joana nasceu, que é um dos maiores polos calçadista do Brasil: os resíduos de curtume nas fábricas de calçados. Ela desenvolveu a partir destas substâncias poluentes um fertilizante organomineral. O retorno ao país de origem resultou em novas oportunidades, como o de se tornar professora da Escola Técnica Estadual (ETEC) Prof. Carmelino Corrêa Júnior, mais conhecida como Escola Agrícola de Franca.

“Quis desenvolver este trabalho de iniciação científica desde a educação básica, e o resultado foi excelente. Reduzimos a evasão escolar. A escola é tradicional, tem mais de 50 anos, e é agrícola. Muitos dos alunos são filhos de fazendeiros da região e não sabiam por que estudar. Muitos achavam que o ensino técnico era o fim, era o máximo que iriam conseguir. Mas, com as idas às feiras e congressos, eles começaram a pensar mais alto, em ir para a universidade, e não estudar só porque o pai manda”, contou ao Portal UOL.

Outra linha de pesquisa é o desenvolvimento de uma pele similar à humana a partir da derme de porcos. O progresso pode ajudar no abastecimento de bancos de pele especializados e de hospitais, além de baratear o custo de pesquisas, uma vez que a matéria-prima do animal é abundante e de baixo custo. A cientista ainda produziu um tecido ósseo feito a partir de materiais também encontrados na natureza: escamas de peixes e colágeno de curtume.

Hoje, ela soma 56 prêmios na carreira, com destaque para a eleição de ‘Pesquisadora do Ano’ no Kurt Politizer de Tecnologia de 2014, concedido pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abquim). Entretanto, o maior reconhecimento é o de inspirar e ajudar jovens no ingresso aos estudos.

“Alguns jovens estavam no caminho errado, mas fazendo a iniciação científica encontraram um rumo. Eles tomam gosto pela pesquisa. Muitos pais vieram me agradecer, e isso é muito gratificante dentro da escola básica. As armas mais poderosas que temos para vencer na vida são a educação e o estudo”, concluiu.

Ficou interessado? O trabalho da cientista está exposto até o mês de outubro no Museu do Amanhã (Rio de Janeiro), na mostra “Inovanças – Criações à Brasileira”.

* Confira o Informativo do CRQ-III para saber mais sobre este e outros assuntos