Professor Francisco Radler comenta a importância da Química contra a dopagem nos Jogos Olímpicos

Os Jogos Olímpicos e Paralímpicos são os maiores eventos esportivos do mundo. Ao todo, mais de 14 mil atletas estarão em terras cariocas para disputar 834 medalhas. Neste ano, o Rio de Janeiro receberá em agosto e setembro os primeiros Jogos da América do Sul com a responsabilidade de entrar para a história como exemplo de organização. Entretanto, em alguns casos, os valores do movimento olímpico (respeito, amizade e excelência) são violados por práticas ilícitas, como o uso de substâncias proibidas.

Para evitar esse tipo de desonestidade, o Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem (LBCD), situado no Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), se prepara para analisar milhares de amostras e lutar por um esporte livre de substâncias dopantes. Por isso, o Conselho Regional de Química – Terceira Região convidou o Coordenador do LBCD, Professor Emérito do IQ da UFRJ e químico registrado no CRQ-III desde 1971, Dr. Francisco Radler de Aquino Neto, para uma entrevista. Ele explicou os preparativos do Laboratório, os métodos utilizados e a importância da química no esporte.

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O Coordenador acredita que a “boa” química do esporte ainda está em seus primeiros estágios de desenvolvimento (Foto: Alexandre Cassiano / Agência O Globo)

O que é dopagem?
“É toda e qualquer prática que seja danosa à saúde do atleta ou que possibilite um aumento de rendimento esportivo que não seja compatível apenas com alimentação, treinamento e estilo de vida, adequados à prática esportiva. Assim sendo, é proibida a administração de substâncias ergogênicas. Também são proibidas práticas que visem a burlar sistema de controle e métodos que levem a uma possível melhora do desempenho esportivo, como a transfusão de sangue.”

É possível quantificar a redução do uso de substâncias proibidas entre antes do maior controle de dopagem e os dias atuais?
“Há estudos, inclusive de nosso laboratório, indicando que a redução foi de um patamar de 15 a 20% de uso da dopagem para menos de 1,5 a 1%. Portanto, o controle de dopagem afasta dessa prática um contingente de milhares de atletas pelo mundo afora.”

Como o LBCD, único laboratório brasileiro acreditado pela WADA (Agência Mundial Antidopagem), está se preparando para os Jogos Olímpicos?
“Com recursos do Governo Federal, através dos Ministérios do Esporte (ME) e da Educação (MEC), foi construído um laboratório novo com equipamentos científicos de última geração. O Governo Federal abriu vagas para professores e técnico-administrativos da UFRJ. Concursos foram realizados e os aprovados foram submeteram-se a um programa intenso de qualificação e treinamento, que continuará até os JO&P2016.”

Quantos equipamentos serão utilizados? Quantas amostras serão analisadas?
“São mais de 80 equipamentos de grande porte (cromatógrafos, espectrômetros de massas etc.) e uns 200 equipamentos de pequeno porte (centrífugas, agitadores etc.). Prevê-se aproximadamente 7.500 amostras o que resultará em mais de 45.000 procedimentos complexos, uma vez que detectar mais de 500 substâncias de estruturas variadas exigirá um painel de uns vinte procedimentos analíticos.”

Qual será o legado para os profissionais de química após as Olimpíadas e Paraolimpíadas?
“Um legado enorme ocorrerá para a UFRJ e, me arrisco a antever, para o próprio país. A construção do Polo de Química decorreu da necessidade imediata de construção do LBCD. Este local permitirá intensificar e aprimorar a formação de profissionais da química e áreas afins com reflexos imediatos nas atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Universidade, dos parques tecnológicos e demais centros de pesquisas na esfera de influência da UFRJ. Naturalmente, isso se propagará para outras regiões do país. Mais especificamente um legado relevante será a redistribuição dos equipamentos excedentes pós-JO&P2016 para outras universidades e centros de pesquisas. A proposta do Governo Federal foi de comprar todos os equipamentos (ao invés de fazer “leasing”). Assim sendo, os recursos aplicados serão integralmente absorvidos pela ciência nacional.”

Além da vontade excessiva por vencer, quais são os agentes externos responsáveis por influenciar o atleta?
“Só a vontade de vencer não explica a temeridade de atletas que se dopam sabendo de efeitos nefastos sobre sua saúde e enormes riscos que correm. Talvez mais relevante que isso sejam os benefícios econômicos e de ascensão social relacionados ao sucesso esportivo. Esses benefícios que podem ser muito elevados, levam inclusive, àqueles próximos ao atleta, a induzi-lo à fraude. Assim sendo, clubes, treinadores, empresários e até mesmo familiares, muitas vezes dão o impulso que faltava para os atletas seguirem a via da dopagem.”

Quantos químicos trabalharão durante os Jogos? E como o laboratório escolheu e capacitou tais profissionais?
“Serão dezenas de químicos e profissionais de áreas afins, como farmácia, biologia, biotecnologia etc. O núcleo duro do laboratório foi selecionado por concurso público. Um contingente razoável de voluntários vem dos Laboratórios Associados ao LADETEC, isto é profissionais que já atuam em nosso “ambiente”, mas fora do LBCD. Em complementação virão aproximadamente 100 especialistas internacionais. Completam esse esforço uns 100 voluntários nacionais, em sua maioria estudantes de química de graduação e pós-graduação. Estes últimos estão recebendo treinamentos específicos para suas funções durante os Jogos.”

Quais são as substâncias proibidas mais usadas pelos atletas? E os principais malefícios?
“São mais de 15 classes farmacológicas proibidas. A Agência Mundial Antidopagem (World Anti-doping Agency-WADA) publica a “Lista de Substâncias Proibidas” anualmente ou a qualquer momento em que novas práticas de dopagem são detectadas. Como o abuso dessas substâncias muitas vezes é acompanhado pela administração de doses supra-terapêuticas para maior “benefício” ao atleta, seja pela sua atividade biológica principal ou para beneficiar-se dos efeitos colaterais menos intensos, sobrecarrega-se o metabolismo do atleta. Em especial, fígado e rins e em muitos casos com efeitos cardíacos e cerebrais. Esses podem levar inclusive à morte.”

O aprimoramento das substâncias ilícitas desafiam constantemente a atualização de equipamentos e processos. Quais são as estratégias para continuar evoluindo nos exames antidopagem?
“A pesquisa é uma constante. Trata-se de um caso interessante em que o “serviço” de análises está intimamente relacionado à capacidade de pesquisa, desenvolvimento e mesmo inovação. Por isso, entendemos que esta é uma atividade intrinsecamente ligada a uma Universidade com o perfil da UFRJ.”

Além do controle antidopagem, como o esporte se beneficia da química para o seu desenvolvimento?
“Infelizmente, a “boa” química do esporte ainda está em seus primeiros estágios de desenvolvimento. Muita ênfase foi dada aos fraudadores na sofisticação da dopagem, o que provocou como reação a extrema sofisticação das análises de detecção da dopagem. Falta um investimento mais sistemático no entendimento detalhado dos aspectos bioquímicos e metabólicos da atividade esportiva. Tais práticas podem influenciar na preparação de atletas e no seu rendimento nas competições. Isso passa pela nutrição, variáveis ambientais, metabolismo durante o esforço e formas de “usar” o organismo do atleta da melhor forma possível de acordo com suas características individuais.”