Químico vencedor de Prêmio Nobel dá conselhos aos estudantes e profissionais do setor no 46º Congresso Mundial de Química

Pela primeira vez na América Latina, o 46º Congresso Mundial de Química contou com a presença de 3 mil químicos, além de nomes renomados do setor, como os três vencedores do Prêmio Nobel. São eles: Fraser Stoddart, ganhador em 2016, pelo seu trabalho com nanomáquinas; Ada E. Yonath, ganhadora em 2009, pelo estudo da estrutura e função dos ribossomos; e Robert Huber, ganhador em 1988, pela determinação da estrutura tridimensional de um centro de reação fotossintética.

Em entrevista ao jornalista Gabriel Alves, da Folha de S.Paulo, o escocês James Fraser Stoddart contou um pouco da sua trajetória e deu conselhos aos futuros profissionais.

 

Como nasceu seu interesse pela química?

R: Sou filho único, cresci em uma fazenda. Era uma vida difícil, mas foi uma boa lição de como ser multitarefa e achar soluções para grandes problemas, como tempestades, doenças infecciosas no rebanho. É a ‘universidade da vida’. Cursei o ensino médio em Edimburgo (Escócia), e tive excelentes professores. Na universidade, entrei em um grupo de pesquisa com salário baixíssimo. Imediatamente fui “picado” pelo insetinho da pesquisa –era algo viciante. Eu ficava até de madrugada no laboratório. Logo pela manhã, já estava de volta.

 

Hoje temos um arsenal molecular: elevadores, carros, rodas, carreadores de drogas… Como foi participar do alvorecer das nanomáquinas?

R: Não havia um caminho claro no começo. Ficou óbvio, penso, depois de 20 anos na academia. Aí já estávamos direcionados para fazer elevadores e alavancas moleculares. Para chegarmos às máquinas moleculares foi necessário muito esforço de design e estudos de performance.

 

O que mudou em sua vida após receber o Prêmio Nobel?

R: Muita coisa. Da noite para o dia você é uma celebridade e não foi treinado para isso como as pessoas da família real foram. Agora tenho muito respeito por qualquer membro de famílias reais.

Em qualquer lugar estou no holofote, há câmeras e pessoas fazendo perguntas. Mas estou preparado para aceitar. É algo que chegou tarde na vida e é só mais um desafio. Também é uma oportunidade de eu ajudar os mais jovens a assumirem posições mais fortes em nossa sociedade.

 

Que conselhos daria a eles?

Gostaria de ver mais cientistas na vida política porque chegamos a um ponto no Ocidente em que isso é absolutamente necessário. Parece que estamos voltando no tempo. Há pessoas negando as mudanças climáticas e falando mal da ciência. Isso tem que ser debatido e os argumentos têm de ser contundentes.

Nos EUA há conflitos entre a administração Trump e os cientistas; no Brasil, cortes do orçamento federal para a pesquisa. Por que a ciência perdeu tanto prestígio?

Queria muito saber a resposta. Os cientistas têm de assumir responsabilidades. A gente tem escondido a cabeça na terra e não estávamos preparados para essa situação, na qual é necessário deixar nossa posição clara.

Se alguém gosta do que o Donald Trump tuíta todo dia, também podem gostar dos tuítes de Fraser Stoddart. Eu digo “isso aqui é ciência e ela é feita dia após dia”. Acho que cada esforço pode fazer a sociedade corrigir a direção para a qual vem caminhando.

 

Que áreas deveriam ser contempladas com o próximo Prêmio Nobel de Química?

R: Gostaria que o prêmio ficasse com a química, e não com algum aspecto da bioquímica ou da biologia, como foi feito por muitos anos. Penso que a área das baterias de ion-lítio poderia ser premiadas, ou a área de energia solar.

Eu gostaria de ver reconhecido o trabalho fundamental que possibilitou a construção de estruturas organometálicas [que têm aplicações na área de semicondutores e na captura de carbono, por exemplo] -é uma área que se desenvolveu muito nos últimos 15 anos, liderada por japoneses.

 

Depois de uma carreira acadêmica de sucesso, como é se tornar um empreendedor e criar start-ups?

R: É algo que me deixa bastante empolgado. Você sabe… O que dá para fazer após ganhar o Prêmio Nobel? Eu teria grande satisfação se minhas start-ups tivessem sucesso e conseguissem gerar lucro para que eu conseguisse criar uma fundação e seguir os passos de outros, como o próprio Alfred Nobel, e retribuir à comunidade científica, seja financiando diretamente a pesquisa ou criando prêmios. A área preferida seria a química -sendo honesto, aquela sem muita conexão com a biologia.

 

Quais as virtudes de um bom químico?

R: Digo que não cheguei aonde estou com inspiração na biologia, mas sendo bem treinado em matemática, física, topologia, teoria dos grafos.

Eu queria ver o reconhecimento de pessoas que vestem a camisa da química e que mostram do que ela se trata: a criação de seus objetos de estudo por meio de síntese, o que torna o químico parecido com um pintor, um escultor ou um compositor. Nós temos essa característica única –somos criadores de coisas.

 

* Confira o Informativo do CRQ-III para saber mais sobre este e outros assuntos